Da série: “Eu posso explicar”

Maior prejuízo para o meu amado sono… tia me acordando às três e vinte e cinco da madrugada, aos berros no telefone, dizendo que eu era uma cadelinha e que só estava esperando amanhecer para vir me espancar, encher a minha face de boas chineladas.
Na verdade, ela falou que ia chinelar outra parte do meu corpo… e não é a bunda.
– Mas tia… eu posso explicar… não penso o que você está sendo… Não! Não é o que você está pensando… foi um, um…
– Foi um o quê…? Seu depósito de porra!
Aí já foi ofensa generalizada, mesmo porque, sempre uso camisinha, não deixo depositarem nada.
Mas, ofensa ou não, só pude esperar o dia clarear um pouco para sumir de casa, ir pedir asilo na casa da vovó.
Pobre vovó!
Só transou com o vovô em toda a sua vida… quer dizer, só deu para o vovô, porque acho que nunca gozou… e ainda tem de ficar ouvindo a neta pedindo proteção contra a tia, a irada tia… por questões sexuais…
Só porque transei com o marido dela… o marido da tia, não o da vovó. Imagina se vou transar com o meu avô! Se bem que…
Falei pra máe que ia na casa da minha amiga Vilma… um pouco mais que amiga ou a amiga para todas as horas, até mesmo naquelas… se é que me entendem.
Falei para o pai que ia mais cedo para o curso de inglês, a pedido daquele professor novo, para treinar melhor a língua.
Falei para o meu irmão que ia na casa do amigo dele, transar com o amigo dele, que é um gato…
Quer dizer, deixei várias pistas falsas, e rumei para a casa da vovó sem falar para ninguém.
Foi o primeiro lugar em que a tia me proccurou… nem passou na minha casa.
Mas como?
Não sei. Só sei que ela foi entrando, dizendo bom dia, beijando o vovô, beijando a vovó, me pegando pela orelha e me jogando no sofá.
Acho que voei. Mas já voei gritando de dor, pois antes de me jogar… ou, na verdade, a tia me jogou foi com uma joelhada bem lá.
Nem cumpriu a promessa de que ia bater com o chinelo.
Fiquei bem uma meia hora, eu acho, tentando gritar, tia, ai, chega, perdão, e sei lá mais o quê, enquanto ela me enchia de boas bofetadas nas orelhas, no rosto, na boca, e, de vez em quando sempre, alguns chutes certeiros bem lá… na precheca.
Não fosse a interveção enérgica do vovô, talvez eu nunca mais ia transar na vida, pois a intenção da tia era mesmo dilacerar aquele meu ponto de má conduta. Fiquei devendo essa pro velho.
Quem sabe… quando eu me recuperar…
Mas, voltando à tia, aos tapas e chutes, aos puxões de cabelo, chegou uma hora em que o vovô conseguiu apartar (não posso esquecer que devo essa pra ele) e, então, fisicamente dominada e exausta, acho que mais exausta que dominada, a tia parou de me espancar e caiu no choro.
E foi chorando, aos prantos, e sempre me elogiando com lindos nomes (cadelinha era o mais bonito ou o menos feio) que ela contou aos anciões que o tio, marido dela, tinha ido consertar o telhado lá de casa e que eu o tinha provocado de lá do meu quarto, da minha cama, só de calcinha, sem calcinha…
– Isso não é verdade, é… minha netinha? – perguntou a vovó, me abraçando.
– É mais que verdade… o Zé Pedreiro estava junto, ele viu… – gritou a tiia.
– É mentira, não é… minha netinha. – perguntou mais uma vez a vovó, na esperança de que eu negasse tudo.
Mas não neguei, não tinha como negar, apenas tentei distorcer os fatos.
– Mas é que eu estava provocando o Zé Pedreiro, era pra ele que eu queria dar, mas aí, o tio viu e me comeu… também.
– Dar, comeu…! Que palavreado é esse, minha netinha? E você de… você fez amor com os dois?
– Mas foi um de cada vez.
E fechou o tempo novamente. Nem meu avô conseguia mais segurar a tia. Ela estava totalmente fora de si e só parou de me bater, e de chutar lá, quando já não tinha mais forças.
Foi embora chorando, dizendo que nunca mais queria me ver.
Dolorida, todinha dolorida, sem saber ainda o que pensar de tudo aquilo, fiquei lá no sofá, a cabeça apoiada no colo da vovó, os pés sobre as pernas do vovô…

Escrito por Anna Riglane

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