Mesmice
Sextou, e a mesmice parecia ser o mesmo de sempre.
Redundância?
Não!
É a chatice de sempre mesmo… vai e vem, some, aparece, permanece… tudo permanece.
Algo me faltava, sempre falta algo…
Amor?
Dinheiro?
Novas emoções?
Amigos?
Sexo?
Sexo…! Por que não?
Um insight, um lampejo, um estalo… e só o que me faltava mesmo era o dinheiro… tudo o mais estava ali, ao meu alcance, e só dependia de mim, apenas e tão somente de mim.
(…)
– Oi!
– Oi… Que surpresa você ligar, escrever!
– Pois é! Mas se eu não ligo, não escrevo, você também não liga nem escreve.
– Pois é, digo eu. Correria da vida, trabalho em excesso, grana em falta…
– Sei… mas sempre se arruma um tempinho para…
– Tá difícil.
– Verdade? Nem uma horinha, meia horinha?
– Hora até que se arruma, mas disposição, ânimo… Tá brava a coisa.
– Tá mesmo? Tá bom! Então acho que não devo ficar tomando o seu tempo, te chateando… beijos, até qualquer dia…
(…)
– Ois…! Adivinha quem é!?
– Não só já adivinhei, como estava para te ligar, escrever…
– É mesmo? Lembrou dos pobres?
– Nunca esqueci… mas é a correria, a agitação… e ainda mais agora com o dia do casamento chegando…
– Casamento!?!?
– É… vou casar, não sabia?
– Sabia… quer dizer, acho que sabia… Legal! Manda, sim, o convite… tem gente na porta, depois nos falamos, mas não esquece de mandar, hem!
(…)

– Olás…! Não lembra mais dos pobres, não?
– Dos pobres eu não lembro, nem quero lembrar, mas de você…
– O que tem eu?
– Você é uma riqueza.
– Jura!?
– Precisa?
– Nunca mais me procurou…
– A correria da vida, sabe com é…
– Até sei e…
– Mas hoje resolvi dar um pausa, um relax…
– E…?
– Foi coincidência, sabia? Ia mesmo te ligar, escrever…
– Sei… e o homem já pousou em Marte.
– Pôxa! Num credita neu?
– Nem um tiquinho, mas…
– Mas…?
– Tens uma horinha, meia horinha…?
– Hum…! Bem que eu preciso.
– Precisa do quê?
– Preciso… preciso do que você também precisa…
– Tipo assim, uma cama, um sofá…
– O banco de trás do carro…
– Um tapete…
– Só que entro no serviço às dez.
– Te espero às oito.
– Meio cedo… oito e meia, pode ser?
– Nem um minuto a mais.
– Mas nem posso demorar muito.
– Meia horinha tá bom, não está?
– Meia horinha… meia foda…
– Meia horinha pode ser, tá de bom tamanho. Mas meia foda, não… tem de ser completa.
– Completa?
– Completíssima…! Te aguardo.
– Tô indo.
(…)
Mesmice!?
mesmice.jpg
_________________
Da serie “Conto em Gotas”
By Anna Riglane – Contos da Hora

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